quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Europa-América-Europa: exotismos e colonialismos

(Esta palestra foi apresentada no Forum Brasil Europa 2005 - A importância das sub-regiões no processo de integração - Fortaleza, 20, 21 e 22 de setembro

Introdução: a conquista sob os desígnios de Deus

O tema desta palestra é o encontro com o outro. Não encontro no sentido idílico apenas, claro, encontro no sentido que abrange também o seu oposto, o desencontro, o conflito, a tragédia. Interessa-me aqui refletir sobre o encontro da Europa com a América em três circunstâncias distintas: a da conquista, a do chamado turismo sexual e a da recente imigração de brasileiros. Desses encontros, interessa-me sobretudo o conteúdo onírico, ou seja, que sonhos, fantasias ou pressupostos religiosos ou filosóficos moveram a conquista da América e movem hoje o turismo sexual e a imigração de brasileiros para a Europa? O que esses fenômenos revelam sobre a dinâmica do mundo global?

Aprendemos que a Europa descobriu a América: Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Dessa perspectiva, povo e continente somente passaram a existir a partir do instante em que foram batizados por espanhóis e portugueses e entraram na geografia do mundo europeu. Analisada assim, criticamente, a idéia de ‘descobrimento’ evoca assimetria e, como afirma Monique Augras (1991:23), “implica a negação da realidade do outro. É como se lugares e seres exóticos estivessem vivendo num limbo, numa ausência de sentido, até que, ‘descobertos’, pudessem aceder ao reino do significado.”

De outra perspectiva, menos óbvia, a América é tão cria da Europa quanto vice-versa. Ao contrário do Oriente de então, visto como igual e até superior, é a América o outro em função do qual a Europa se constrói onipotente e exemplar. Não seria o que é se não tivesse se expandido pelo continente americano e, através do domínio dos seus habitantes e riquezas, tornado-se poderosa, central, mãe e madrasta. Desta visão partilha também o historiador argentino, Mario Casalla, quando, no livro América Latina em perspectiva, afirma (2002:12):

"Com o descobrimento da América, além de ampliar o mundo já conhecido, a Europa teve que redefini-lo completamente. Na verdade, o que se descobre é o mundo como uma totalidade. O que verdadeiramente inicia é a possibilidade de uma história universal, esta era global cuja consumação agora nos leva de volta àqueles começos, reinterpretando-os de outro modo. O descobrimento da América, portanto, singulariza a Europa ao mesmo tempo em que totaliza a América. Ambas, simultaneamente, descobrem que não são únicas e que não estão sozinhas."

O empreendimento de construir o mundo como uma totalidade provinha de um desejo divino de cuja realização espanhóis e portugueses acreditavam haver sido incumbidos. No primeiro verso do poema O Infante, do livro Mensagem, Fernando Pessoa, atualiza a crença que alimentava o desafio dos perigos do Mar Tenebroso: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma; que o mar unisse já, não separasse. Sagrou-te e foste desvendando a espuma.”

Abençoadas por Deus, as naus portuguesas e espanholas foram desvendando a espuma e após dominarem o medo das trevas e consumarem a grande conquista, uma nova empresa se preparava: “devorar o descoberto; digerir o mundo” (Oliveira Martins apud Bonfim 2002:670).

O que acontece a partir daí nada tem a ver com a idéia de Paulo, o apóstolo, de conversão do gentio através da persuasão intelectual com a finalidade de cumprir o desígnio divino de realizar a obra de tornar a terra toda cristã. Ao contrário, portugueses e espanhóis mataram, trucidaram e destruíram tudo o que encontraram à frente.

Apesar de tudo, vários intérpretes do “encontro” consideram que ele, afinal, não produziu só desgraça. Em coletânea de crônicas intitulada En Esto Creo, Carlos Fuentes afirma,

"Creio na América Ibérica. O Atlântico não é para mim abismo, mas ponte. As águas do Mediterrâneo fluem do Bósforo e Andaluzia às Antilhas e Golfo do México. Mar de encontros. O primeiro foi um choque. A América desejada foi a destruída. O sonho europeu de uma nova Idade de Ouro num Novo Mundo pereceu na mina, na hacienda, no barco escravista. Destruíram grandes civilizações. A conquista de América foi uma catástrofe. Porém uma catástrofe, diz Maria Zambrano, só é realmente catastrófica se dela não nasce nada que a redima. E da catástrofe da conquista nascemos todos nós. Somos, majoritariamente, mestiços, filhos do encontro."

O sentimento de Darcy Ribeiro é semelhante ao de Carlos Fuentes quando assevera:

"Surgimos da confluência do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos. Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais dispares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais dela oriundos. Povo novo, ainda, porque se vê a si mesmo e é visto como um novo gênero humano diferente de quantos existam. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade que alenta e comove a todos... Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão européia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa."


Sérgio Buarque de Holanda, Guillermo Giucci, Frederick Turner, Mario Casalla e outros historiadores e filósofos que se dedicaram a refletir sobre os motivos edênicos da conquista da América contam-nos que o massacre não existia em intenção, embora pudesse ser pressentido nas justificativas para a empresa marítima. Havia, claro, além do Paraíso Terreno que se esperava encontrar, razões mais pragmáticas como a de encontrar um caminho marítimo para as Índias, já que os terrestres haviam sido tomados pelos turcos. Através desse caminho se expandiriam o comércio, o cristianismo e o império dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela que, aos fins do século XV, “iniciavam em conjunto uma arrasadora expansão continental e ultramarina que em breve transformaria a Espanha no mais poderoso, e mais temível, império do planeta” (Giucci 1992:99).

Mas é necessário compreender mais profundamente como Deus e conquista se conjugam. Em tese bastante ousada, Frederick Turner (O espírito ocidental contra a natureza, Editora Campus, 1990) defende a idéia de que a base da miséria e destruição espalhadas no mundo pelos cristãos está na transformação do cristianismo numa religião de Estado e na sua conseqüente fossilização. Isto é, a translação do cristianismo do mito para a história está na base da repressão do homem à sua natureza instintiva, de um lado e, de outro, na recusa definitiva e inabalável da Igreja em aceitar novas revelações, pois as havia restringido à era dos apóstolos. Sem espaço para qualquer concessão à natureza e sem a esperança de novos milagres ou revelações, o cristianismo abandona a dialética do mito pela da história. É a repressão à natureza instintiva que justifica as agressões contra o corpo, o mundo natural, os chamados primitivos, heréticos e céticos, tudo com a esperança de alcançar uma fé ou um paraíso perdidos. A violência contra o Outro é claramente apenas a outra face da violência contra si próprio. É o que se aprende com o apóstolo Paulo que, já na epístola aos Romanos revela o desprezo pela própria vida e desejos e a igualdade proposta entre conversão e auto-imolação. É essa lógica, portanto, que transforma a violência contra si mesmo, expressa na auto-flagelação e em todo tipo de auto-sacrifício, em condição de santidade, exemplo de fé e também autoridade de infligi-la ao outro. Nesse sentido, pelo menos, os cristãos europeus não fizeram contra as populações nativas da América nada que já não estivessem fazendo contra eles próprios ou outras populações européias não cristãs.

Independentemente de o impulso da colonização ter se originado no vazio criado nas almas por uma religião fossilizada e decadente; nas demandas da divisão social do trabalho; na pressão demográfica; no avanço do conhecimento náutico ou simplesmente na ganância mercantil ou imperial por conquistar o mundo afora, uma condição foi fundamental: a crença na superioridade do homem europeu sobre outras formas de humanidade.

Cinco séculos e muitas tragédias depois da conquista da América, os europeus conseguiram o extraordinário feito de submeter o mundo à sua dinâmica. Crenças e hierarquias européias impregnaram as novas sociedades que se formavam da destruição das sociedades autóctones na América, primeiro, e, depois, em outras partes do mundo. O que se expande é o que precisa ser expandido porque é superior. Esta crença, “sintetizada por Juan Ginés de Sepúlveda, no seu Tratado sobre las justas causas de la guerra contra los índios (1547?), indicava que o perfeito devia imperar sobre o imperfeito por direito natural e divino. E, referindo-se especificamente ao índio americano, afirma que o bruto deve obedecer ao homem” (Giucci 1992:175). Seguindo essas orientações, portugueses e espanhóis desdenham o paraíso natural ofertado com as suas Evas e Adões originais e se lançam sôfregos em busca do que vale mais no mundo dos europeus: o ouro, a prata e as pedras preciosas. De posse desses tesouros, poderiam transformar qualquer lugar na terra em paraíso. A punição de ganhar o pão com o suor do próprio rosto havia sido revogada como prêmio pela travessia do Mar Tenebroso. Que fosse, então, transferida aos que usufruíam do paraíso sem merecimento; estes sim, entrariam finalmente no reino da humanidade, mas pagariam com o próprio suor pelo pão de todos.

Mario Casalla (2002:30) conta que, em 1656, quando Antonio Leon de Pinelo escreveu El Paraíso en el Nuevo Mundo, este paraíso já havia sido tão pisoteado que dos oitenta milhões de habitantes originais restavam apenas pouco mais de três e que o México, por exemplo, somente recuperou a sua população original em 1960. Há controvérsias sobre o tamanho da carnificina nas terras brasileiras, mas alguns autores, Darcy Ribeiro, por exemplo, estima que esta pode ter atingido a cifra de 10 milhões.

Se portugueses e espanhóis, que não perderam quase ninguém, comparando com os aborígines, criaram as suas histórias de antropofagias e terror, que histórias não criaram os nativos que sobreviveram sobre o massacre contra eles? Michael Taussig, Frederick Turner e Mario Casalla são apenas alguns dentre vários antropólogos, historiadores e filósofos que mais recentemente vêm explorando o impacto do terror europeu sobre os nativos americanos. É claro que havia resistência e esta produzia ainda mais terror, embora produzisse também algumas comédias. Inspirado provavelmente na leitura de Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Manoel Bonfim, João Ubaldo Ribeiro, em Viva o Povo Brasileiro, conta a história da resistência (1984:50-56): do caboclo Capiroba que aprendeu a apreciar carne de holandês e os criava como porcos, em chiqueiros. Animais domésticos que, como os outros, serviam também para a diversão de crianças e adolescentes. É entre uma brincadeira e outra que Vu, filha de Capiroba, descobre os prazeres do sexo com Sinique, o holandês prisioneiro, dando-se aí o oposto do que ocorreu mais comumente.

As metamorfoses do mundo
O mundo se metamorfoseia nesses cinco séculos, mas não se transformam os pressupostos da metamorfose. Assim, a crença na superioridade do homem branco europeu, ou seus legítimos descendentes, os anglo-americanos, continua orientando as trocas e encontros neste mundo global. Se tal superioridade era inicialmente conferida pela proteção de Deus, hoje ela é garantida pelo poder da Ciência. Se antes era Deus a senha e a justificativa, hoje é a Civilização, a Ciência, o Desenvolvimento e a Economia. Todas, como Deus, escritas com letra maíscula.

Curiosamente, apesar do vasto conhecimento produzido sobre o Outro, europeus e anglo-americanos continuam fantasiando o mundo sob o seu domínio como se o tempo não tivesse passado.

Deixo, agora o mundo de Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo e Pero Vaz de Caminha e aporto no mundo de hoje: onde a palavra “América” já não significa mais o continente americano, tornou-se sinônimo de Estados Unidos, o país do continente que se tornou império... Onde Fernando de Aragão e Isabel de Castela foram substituídos por George Bush e Tony Blair. Onde ao invés de serem os europeus que partem em busca de aventuras e riquezas no Novo Mundo, agora são os americanos, também chamados de latinos, que partem em busca de explicações para o seu enigma ou promesas de riqueza no velho mundo. É de um habitante do mundo de hoje, Wladimir Weltmann, jornalista brasileiro que entrevistei em Los Angeles, em 1999, durante pesquisa sobre brasileiros imigrantes, que ouvi a seguinte síntese sobre a fantasia européia e anglo-americana do Brasil: “eles acham que o Brasil é só festa, tempo bom e sexo. Para eles o Brasil é uma grande orgia: as mulheres andam nuas e todo mundo está sempre transando numa festa que não acaba nunca...”

Praticamente não há diferença entre essa fantasia e a crença européia dos séculos XVI e XVII, de acordo com a qual “não existe pecado do lado debaixo do equador.”
Como os viajantes e conquistadores do passado, os turistas e os negociantes de hoje continuam imaginando o Brasil como um território do maravilhoso: sem lei, governo, trabalho, punição ou sofrimento...

Como toda fantasia, esta também desvaloriza os conteúdos estáveis da realidade que a inspira porque o que importa são os interesses, desejos e projeções do observador e a sua atração por certos conteúdos à revelia de outros. No caso da exotização européia da América, ou da exotização “americana” do Brasil, as características em torno das quais a fantasia se desenvolve sempre convergem para um primitivismo já superado pelas sociedades do observador. Nesse sentido, exotização já não representa a preferência pela diferença, como a etimologia da palavra sugere, mas uma representação deformada que facilita e justifica a dominação. Ou seja, a relação entre exotizador e exotizado, tal como desenvolvida no mundo ocidental, é delimitada por uma outra, aquela entre colonizador e colonizado (Said 1979; Memmi 1991; Fanon 1963). É, portanto, uma relação de dominação e não de reciprocidade.

Não estou propondo, contudo, que o mundo cristão-ocidental seja o único a exotizar e criar configurações específicas para a alteridade. Todos os povos, etnias e culturas o fazem, mas o que é único das nações e povos da Europa ocidental que colonizaram o mundo, particularmente do século XVIII em diante, “é que somente eles tiveram o poder de tornar universal o seu discurso sobre o Outro” (Savigliano 1995:9). Portanto, para além dos benefícios filosóficos ou políticos (se pensarmos particularmente na construção do Império Estadunidense) com que a idéia do outro nos brinda, a exotização sempre tem propósitos muito práticos. Ela funciona, por exemplo, como uma estratégia do colonizador para manter o colonizado no seu lugar. Primitivo, selvagem, passional, imprevisível, etc, o exotizado é sempre posto numa posição que demanda a intervenção, ajuda ou domínio do civilizado (Aparicio & Chávez-Silverman 1997; Benz 1997; Urraca 1997). Mas a exotização funciona também como um meio de comercializar o colonizado e os seus “bens,” sejam eles quais forem. Música, dança, sexo e comida, por exemplo, transformam-se em mercadorias submetidas às mesmas regras de outros produtos no mercado capitalista.

Vimos, na explicação de Wladimir que a mulher está no centro da exotização européia e anglo-americana do Brasil. Transcrevo, abaixo, trecho de entrevista ainda mais revelador, de Elizabeth, 67 anos, que mora em Los Angeles desde 1992.

"De um modo geral a idéia que os americanos e europeus têm do Brazil é carnaval. Carnaval e as mulheres mais bonitas do mundo. Carnaval, quer dizer, tá sempre pronto pra farra. Quer dizer, dizer que é brasileiro já é dar um sinal verde. É um convite à molecagem. A maior propaganda do Brasil é uma bunda… se tivesse um outdoor do Brazil seria uma bunda enorme. Agora, me diga, por que é que o Brasil tem que ser representado por bundas a vida inteira? Pois é, é esse o mercado que se oferece pro Brasil aqui: bunda, sexualidade, carnaval. Então é assim, em todo canto, se não tiver umas trinta bundas, de mulatas, de preferência, parece que não passa a mensagem, não vende. Até o consulado brasileiro promove isto..."

Mais do que Wladimir, e por razões óbvias, Elizabeth insiste nos problemas produzidos pela concentração da exotização do Brasil na mulher brasileira.
Mas a observação de catálogos turísticos da República Dominicana, Cuba, Tailândia e mesmo Japão permite-nos constatar que a exotização da mulher não é uma particularidade da exotização do Brasil e menos ainda do tempo presente. Estudando as narrativas de Pierre Loti, escritor e oficial da Marinha Francesa do final do século XIX, Todorov (1992: 308-323) também observa que ele reduz os países que visita às suas mulheres:

"Essa relação dual, de homem para mulher e de europeu para estrangeiro não é de forma alguma simétrica e nem poderia ser: uma experiência devotada à busca de impressões implica que o viajante é o único ser humano elevado à dignidade de sujeito; as mulheres são apenas o mais importante entre os seus objetos de percepção. O viajante masculino é ativo; um dia chega e no outro vai embora. Entre esses dois eventos, o da chegada e o da partida, aprendemos sobre suas experiências e sensações. Ambos, a mulher e o país estrangeiro permitem ser desejados, governados e abandonados (idem: 315)."

Todorov insiste na posição de sujeito ativo do viajante europeu. Como dissemos anteriormente, o que conta para o exotizador é exclusivamente a sua perspectiva. Portanto, “uma vez que o seu navio está sempre de partida, é sempre ele que acaba a relação, enquanto a mulher fica em casa, abandonada.” Todorov conclui dizendo que “as duas fases da relação – o encantamento com o incompreensível outro e o abandono no final – traduz perfeitamente a ambivalência do exotismo de Loti. O homem europeu é atraído e seduzido, mas ele invariavelmente volta ao seu lugar. Assim, ele se beneficia duplamente: tem o benefício da experiência exotica (uma mulher e um país estranhos) sem ter que realmente questionar o seu próprio pertencimento ou sua identidade” (idem: 328).

Mais de um século depois da aventuras de Loti, não há pessimismo que não reconheça que o mundo mudou e que, apesar da tendência dominante ser ainda a de os viajantes e turistas voltarem para o lugar de onde vieram, o casamento de europeus e norte-americanos com mulheres de outras culturas, ou mulheres exóticas, tornou-se mais comum. Não tanto porque as metamorfoses do mundo cristão-ocidental dominante produziram a alteridade como valor, mas porque o patriarcalismo vem sendo questionado no seio dessas sociedades e as funções tradicionalmente masculinas não têm sido mais tão recompensadas como antes. As mulheres de outras culturas ou mulheres exóticas representam nesse sentido o que eram, no passado, as mulheres européias e americanas do presente. Por outro lado, e isto confirma o conteúdo assimétrico do exotismo ocidental, a porcentagem de brasileiras casadas com norte-americanos e europeus assim como de europeus e norte-americanos (principalmente brancos) casados com outros grupos étnicos revela, por exemplo, que os europeus e norte-americanos têm consideravelmente mais chances de casar com mulheres “exóticas” do que homens de outras nacionalidades, particularmente os exóticos ou exotizáveis porque o mercado internacional de casamentos, como os outros, também segue a lógica das ideologias imperialistas e racistas de acordo com as quais europeus e norte-americanos valem mais do que os homens de países colonizados.

Do mesmo modo que europeus e estadunidenses têm o poder de tornar universal o seu discurso sobre o Outro, também têm de produzir sobre eles próprios estereótipos que enfatizam as suas qualidades dominantes. Em estudo sobre a exotização das asiáticas, Sheridan Prasso afirma que “nos bares de Bangkok e noutros lugares da Ásia, os homens ocidentais encontram recompensa para a crise da masculinidade que vivem em seus países. Na interação com as mulheres e a cultura asiáticas, eles experimentam sentimentos de dominação, riqueza, poder e masculinidade – pelo menos temporariamente. Lá qualquer ocidental pode experimentar o sentimento de se sentir sedutor novamente – até amado. Velho, gordo ou feio, de acordo com os padrões ocidentais, não importa, qualquer um pode se tornar o super homem ou o Lord Jim (Prasso 2005: 7). Não é diferente o que observo quando caminho pela Beira-Mar ou Praia de Iracema aqui, em Fortaleza. Vale aqui o que vale em Bangkok, São Domingos, Rio de Janeiro e também Paris, Berlin e qualquer lugar do mundo. As pessoas são valorizadas, avaliadas, bem ou mal tratadas em função de quão próximas elas estejam do branco colonizador. Cada lugar criará variações próprias, mas as hierarquias racistas e classistas funcionam em todos eles.

É, portanto, dentro do contexto desses significados e relações que a integração do imigrante ocorre em todos os lugares do mundo. Imigrantes, turistas e estrangeiros em geral sempre têm de lidar com as imagens que deles têm o mundo e das quais eles, muitas vezes, não têm nenhuma consciência até o momento em que decidem se aventurar por aí.

Falo agora sobre os brasileiros imigrantes na Europa, a partir de estudos sociológicos e antropológicos de terceiros e dos meus próprios desenvolvidos sobre a imigração brasileira nos Estados Unidos, especialmente Los Angeles.
Estudando imigrantes brasileiros em Portugal, Igor Machado (2004) observa que ao se enquadrarem na imagem de brasileiro cultivada por Portugal – que, como esperado, não é particularmente diferente da existente nos Estados Unidos – os imigrantes adquirem mais valor num mercado de trabalho que funciona com a vantagem estrutural do exotismo brasileiro sobre outras nacionalidades. Neste caso particular, que é também o caso da indústria cultural brasileira em Los Angeles, os brasileiros que são mais brasileiros (ou mais autênticos) são melhor recompensados. Portanto, todo imigrante brasileiro logo precisa encarar o desafio de se tornar um verdadeiro brasileiro o que significa, entre outras coisas, dançar samba, fazer feijoada, jogar futebol e assim por diante. Desse modo, eles deliberadamente trabalham na produção da própria exotização e se tornam “vítimas e agentes de uma subordinação ativa” (Machado idem: 218). Ou seja, eles são vítimas em relação ao fato de que não têm poder para mudar a imagem do Brasil e do brasileiro no mundo, mas são agentes no sentido de que se submetendo à imagem dominante e negociando-a apropriadamente obtêm vantagens em relação aos que são menos brasileiros ou não-brasileiros: eles tornam-se os autênticos representantes do Brasil e da brasilidade.

Mas por que submeter-se à fantasia do outro? Ou, noutras palavras, quais as vantagens de limitar os nossos movimentos à imaginação do outro? Os vários diplomatas brasileiros, com quem conversei aqui, no Brasil, ou nos Estados Unidos, assim como os próprios imigrantes, acham que o problema não é tanto o estereótipo, porque, afinal, ele atrai todo mundo, mas a capacidade de ir além dele e mostrar que o Brasil ou a brasileira é muito mais do que beleza e sensualidade...
Mas é assim mesmo, para o colonizado, a exotização sempre significa estar sendo reconhecido, notado e identificado. Por exemplo, ser um latino exótico em Los Angeles é muito mais interessante do que ser apenas latino... O problema é que esse reconhecimento também objetifica e limita. Com o objetivo de perpetuar a identidade exoticamente conquistada, o colonizado tem que permanentemente praticar o auto-exotismo e tem que fazer isto de acordo com as expectativas do colonizador, ou perder o reconhecimento. Ou seja, nesse jogo a maioria dos riscos é assumida pelo colonizado.

Enfim, sexy, animadas, bonitas, gostosas, submissas, promíscuas: como as brasileiras convivem com essas imagens lá fora?

Algumas, como a que citei acima, insistem que a imagem invoca sexo e permissividade automaticamente. Mas muitos outros brasileiros acham que o brasileiro realmente tem uma forma especial de lidar com a sexualidade. Uma delas me disse: “o jeito que a gente lida com o corpo no Brasil encanta os gringos porque nós somos muito mais generosos... Eles ficam loucos com isto porque, coitados, eles são tão mesquinhos com os seus corpos... né?”

Esta última percepção parece ser a mais universal e é certamente a que alimenta o negócio do turismo sexual aqui, no nordeste do Brasil e Rio de Janeiro. Artigo publicado na Brazzil (revista para anglófonos interessados no Brasil), afirma que “Club Med – uma cadeia de mais de 120 resorts do prazer espalhados pelo mundo realizou uma enquete entre seus quase dois milhões de hóspedes anuais sobre qual era o povo mais sensual do planeta”. As mulheres e os homens brasileiros despontaram como os mais quentes de todos.

O que é especialmente interessante nessa discussão é observar que independentemente de como as brasileiras lidam com o estereotipo, a maioria delas realmente acredita que são mais atraentes do que as mulheres de qualquer outra nacionalidade, especialmente européias e norte-americanas.

O fato é que não importa que meias-verdades a exotização difunde, elas sempre são compartilhadas por ambos, o exotizador e o exotizado. Aquilo que em princípio é verdade apenas da perspectiva do outro, transforma-se aos poucos em verdade para todos. E esse tipo de verdade pode facilmente tornar-se um trunfo, dependendo do que está em jogo. Para aqueles negociando prazeres sexuais radicais, não há dúvida sobre o valor dessa imagem erotizada. Mas e para aquelas que querem apenas um marido ou um emprego que não seja o de acompanhante, dançarina ou garçonete?

Pela sua conexão com colonialismo e dominação, é razoável supor que a atração às brasileiras leva mais naturalmente ao sexo do que ao casamento… De todo modo, e contra as expectativas da própria lógica do exotismo, a aproximação do outro pode conduzir a resultados inesperados. A proximidade, mesmo que breve, pode dissipar fantasias e sonhos, mas pode também aprofundar desejos, desprezo ou admiração pelo outro.

Conclusões

Meio contra a minha formação antropológica, fiquei, ao longo deste artigo, discutindo questões mais gerais: Europa, América, dominação, colonialismo, exotismo. Falei quase que exclusivamente das conseqüências da pretensão de superioridade de uma expressão de humanidade sobre outras. Não desconheço a realidade das hierarquias (de classe, raça, etnia, região e gênero) ao meu redor e, apesar de saber que praticamente todas são heranças européias, isto não muda nada. Ou seja, não as fazem menos nossas porque, indepedentemente de quanto se expresse nas nossas aparências, a Europa é parte dominante do que é a nossa alma e os nossos desejos. Sentimo-nos tão profundo e legitimamente ocidentais que é um choque descobrir que não é assim que europeus e norte-americanos nos vêem.

Pois é, apesar de ter prometido inicialmente que falaria do encontro entre a Europa e a América, concentrei-me mais no desencontro. É ele que é mais dramático e mais evidente. Mas não acho que seja lúcido, justo ou mesmo razoável me concentrar apenas nele. A minha própria experiência de várias migrações é um exemplo de muitos encontros... e também de muitas metamorfoses. A resistência à idéia de superioridade não é um movimento que vem apenas de fora, mas de dentro. Esse mundo global de fluxo ilimitado de capitais e fluxo limitadíssimo de pessoas não se contém mais nas fronteiras nacionais ou religiosas... Aliás, é exatamente por isto que estamos a nos reunir aqui para pensar em alternativas. Falei da Europa e da América como se elas fossem blocos estanques, sei que não são, vimos isto aqui claramente durante esses dois dias... Falei algumas vezes também como se elas estivessem ainda separadas pelo imenso Mar Tenebroso do século XVI. Sabemos que não é mais assim. Podemos chegar à Europa hoje em apenas 10 horas de viagem e sabemos também que há muitos espaços em que não há separação nenhuma entre esses mundos, como os da internet e do telefone, por exemplo. Acho que, embora complicados, os encontros são possíveis sim: comerciais, amorosos, políticos, de amizade. Mas serão tanto mais possíveis quanto mais capazes nos tornemos de enxergar a humanidade do outro: a não usar a diferença como justificativa para a opressão. Assim, gostaria de finalmente concluir citando o trecho de uma música do Skank que acho bastante apropriado para esta circunstância: “se o Brasil não é para cada um, ele não vai ser pra nenhum”. Também é assim com o mundo inteiro; ou é de todos ou não é de ninguém. Todos os dias as várias tragédias que os jornais estampam falam disto.

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